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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Da corrupção e outros estratagemas




Vez por outra, recebo coisas interessantes em meu e-mail, por outras vezes já postei aqui algumas dessas coisas (um texto do Jabor, algumas cartas-manifestos). Hoje, vem à baila algo no mesmo molde.
Desta feita é uma carta-manifesto que recebi ainda no começo da corrida eleitoral (ou seria eleitoreira??) para a presidência deste país que chamamos Brasil, nela a autora queixa-se da clara hipocrisia e sem-vergonhice de nossos candidatos (quero lembrá-lo que a etimologia da palavra refere-se à pureza de intenções e ações); abaixo transcreverei um trecho da citada carta:

"...Eu sou contra a corrupção em todas as suas esferas. Sou contra o colega que bate o ponto e não entrega suas tarefas no prazo. Discordo totalmente da compra de CDs e DVDs pirata. Acho um absurdo quem paga o guarda para fugir da multa e acho horrível quem rouba do vizinho a TV a Cabo, a luz, a água, o gás. Sou contra a corrupção do pai que conversa com o professor para conseguir mais uma chance para o filho reprovado.

Sou contra o crime do aluno que pede o colega para assinar a folha de presença da faculdade e o crime do colega que aceita o pedido. Sou contra a corrupção de quem não pede a nota fiscal apenas para pagar um valor menor na consulta. Acho vergonhoso a pessoa não devolver o troco que recebeu a mais numa compra. Tudo isso é corrupção que fazemos diariamente e ainda achamos pouco. Queremos que nosso amigo consiga um estágio para o nosso filho sem precisar passar por nenhuma seleção e achamos natural e correto o pai dono da empresa colocar o filho como diretor e um absurdo o deputado que faz o mesmo.

Essa corrupção no nosso DNA nos impede de ver que o problema não é o mensalão, ou a troca de cargos por votos que dá na mesma e todos – realmente todos – fazem igual. O problema é que somos corruptos o suficiente para não “perdermos tempo” fazendo valer nossos direitos, brigando para que deputados e senadores votem a favor do povo. Sim, somos corruptos porque ganhamos nosso precioso tempo, ganhamos menos aborrecimentos e ganhamos ignorância política. Nós somos os maiores corruptos nesse jogo porque é nosso dinheiro que se vai em alianças políticas para votar com o governo apenas porque não queremos “gastar tempo” fazendo valer nossos direitos e cumprindo com nossos deveres de cidadãos."

Concordo com este trecho! E com o resto da carta, a não ser uma frase beeeem do início ( segunda, com aquela palavra com "D"); mas isso não a invalida ou a torna menos importante!

OK! Você vem aqui no blog(será que alguém vem? ninguém comenta nesta joça), e dá de cara com um texto pró-voto nulo; aí você diz "'isso tá fora de época, não vai ter eleição..."'

E eu digo: amigo temos Carnaval fora-de-época, porque não posso fazer campanha fora-de-época??? Hã??? Que lei me proíbe? Mas deixemos isso de lado e prossigamos com sua leitura!

Como disse jabor, no texto postei anteriormente, nós (me incluo porque não sou hipócrita, nem me iludo me achando perfeito e infalível) temos o péssimo hábito de nos horrorizarmos com os casos de corrupção que são defraldados, como se estes políticos fossem entes de algum planeta distante, ou que simplesmente não fazem parte de uma parte ainda maior o 'TODO-POVO'. Vamos por a mão na consciência!

QUEM, ao ler isto, poderá afirmar que se horroriza pelo fato do crime MENOS que pelo fato dele ter sido descoberto???

Normalmente não faço analogias sincréticas, mas lembrei de uma perfeita para o tema "atire a primeira pedra, quem nunca pecou"!!

Vejam, no texto de Mariana, ela diz que é contra todas estas formas de corrupção quotidiana, eu também sou! Mas já me vi cometendo algumas delas (eu poderia dizer "as leves, não graves"), mas isto seria hipocrisia de minha parte!

MAS como podemos cobrar de nosso representantes políticos que sejam honestos, íntegros, se lá no fundo - talvez (apenas por não querer acusar formalmente) - nos consome a inveja do "poder" que eles tem? Se, em nosso íntimo, alimentamos aquele pensamentozinho medíocre e cretino 'quer roubar? então faz direto!'? Ainda que, por vezes, pensemos: 'ah eu numa boca dessas! Mas nunca que iam me pegar!!' Olhem a Alegria do Tiririca(se você votou nele como protesto... sinto muitíssimo por você!!):


COMO!? Nós jamais deveríamos sequer pensar nessas possibilidades (ok. Pensar até que vai! Mas ter a íntima certeza que poderíamos fazê-las...)! Nós precisamos de EDUCAÇÃO! E não me refiro apenas à educação formal, académica. Falo de uma educação civil, laica (até mesmo "moral" por falta de um termo que julgue mais adequado), integral. Uma educação que mostre às nossas crianças e jovens que este tipo de conduta é errada, é criminosa, mas que também explique PORQUÊ.

Falo de nossas crianças e jovens porque elas serão as próximas vítimas de tudo que já semeamos de danoso, decrépito e nefasto; porque são elas que tem maior probabilidade de conseguir modificar as coisas. Nós já somos "cachorro velho" e todos sabem que "truques novos" é muito difícil de aprender nesta fase da vida; mas podemos ensinar!!

Ensinar como as coisas DEVEM ser, explicar a elas como as coisas PODEM ser; esta é a opção à perpetuidade das coisas como são! Precisamos aprender com nossos primos dos Norte (EUA), nossos primos do oriente.

Não falo aqui de formarmos uma nação socialista, ou sócio-democrática, ou comunista, ou democrática, falo apenas de formar uma nação íntegra! Onde se entenda que o bem de um pode e deve ser compartilhado pelo outro (o bem-comum) e quando alguém manipula o sistema para ganho pessoal, ele está agindo no sentido diametralmente oposto gerando o "mal-comum"! Pensemos nisso!

Mas não gastemos tempo demais pensando! Apenas o suficiente para entender e depois agir, mas agir com vontade!

Porque já basta de dizerem que elevar o salário da população é demasiado para os cofres públicos, mas e quanto a aumentar os próprios salários?! Reconheço que merecem um JUSTO soldo pelo serviço que prestam(???). Mas a esse nível? É rapina!!


Caso fiquem curiosos para ler a carta toda, podem acessar um dos links abaixo:

4shared (download gratuito e sem inscrição)

Scribd (leitura online e download mediante inscrição)

GoogleDocs (leitura, compartilhamento online) Talvez este não funcione direito (1ª vez que uso)

Agora, para finalizar, deixo-os na companhia do CQC:


Por hora, é tudo quanto tenho a dizer!


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viva a lei de Gérson!

Sem resumo

O meio-campista Gérson ficou célebre não apenas por ter sido uma das maiores estrelas do tricampeonato brasileiro em 1970, mas por ter formulado, na propaganda do cigarro Vila Rica veiculada anos depois, aquela que viria a ser conhecida como lei de Gérson: "O importante é levar vantagem em tudo, certo?" - frase dita num carregado sotaque carioca, forçando os erres até o palato ficar encharcado. Gérson tentou por muito tempo se desvencilhar da fama de patrocinador dos espertalhões, patrono dos corruptos e propagandista dos canalhas, mas não teve jeito. A lei de Gérson pegou. Sociólogos, antropólogos e a nata da intelectualidade brasileira já gastaram horas e mais horas, tinta e mais tinta, neurônios e mais neurônios para condenar nossa brasileira condição gersoniana. Somos mesmo uma nação de egoístas, corruptos e sacanas, que só pensam em si e só querem saber de levar vantagem. Certo?

Errado. No fundo, Gérson deveria ter é orgulho. Só a lei de Gérson nos salva nesta era politicamente correta, em que anão virou "verticalmente prejudicado", pobre virou "excluído social", débil mental virou "diferentemente capacitado" e em que nem propaganda de cigarro é mais possível fazer sem pedir desculpas em letras garrafais. O enunciado da lei de Gérson põe a nu a essência do nosso caráter sem pudor: somos um povo que gosta de levar vantagem. E daí? Alguém aí teria orgulho de fazer parte de uma nação de trouxas e otários?

Ninguém aqui vai defender um comportamento antiético ou ilegal com base no enunciado da lei de Gérson. Se ela existe, é em primeiro lugar reflexo da nossa realidade. Veja o caso das nossas empresas. Na hora de dar entrevista e aparecer na mídia, todas querem loas a sua responsabilidade social corporativa e boa cidadania. Na hora de declarar imposto, de desempatar alguma pendenga judicial ou de conseguir autorização para obras, estão todas atrás do primeiro Rocha Mattos de plantão para livrar-lhes a cara, já que, em meio à nossa barafunda legal, a propina é questão de sobrevivência e só ela faz a economia andar.

Parece que o povo brasileiro vive uma tensão entre duas forças. Por fora, a força da imagem. Em público, todos têm de ser como que sacerdotes, com comportamento impecável, retidão moral absoluta, espinha dorsal inflexível. Os políticos corruptos são condenados com virulência, qualquer deslize de executivos tem de ser punido de forma exemplar, damos a nossos filhos a impressão de que a ira divina se abaterá sobre suas menores falhas. Esse sentimento faz a fortuna e a desgraça de prefeitos, governadores e presidentes. Por dentro, porém, irrompe a força de Gérson. Ninguém agüenta essa pressão hipócrita. Todos querem o melhor para si - e que mal há de haver nisso? De posse da menor fímbria de poder, de uma tênue nesga de oportunidade, não raro transgredimos as mesmíssimas regras cuja transgressão acabamos de condenar nos outros. Julgamos, condenamos, enforcamos e esquartejamos Gérson. Mas Gérson somos nós. Eis nosso dilema.

Para que tanta hipocrisia? Nada disso precisa ser assim. A lei de Gérson muito deveria nos honrar. Basta despi-la da hipocrisia para perceber que é a esperteza nacional que faz o Brasil se destacar em meio à mediocridade reinante no planeta politicamente correto, em que tudo tem de ser igual e insosso, em que todos acham que têm direito a tudo, em que a criatividade - e a verdadeira diferença - foram banidas. Na América Latina, os argentinos choram suas tristezas frustradas num tango melancólico, enquanto nós brasileiros damos risadas de nossas sacanagens num alegre sambinha. Qual o problema se podemos ser espertos e felizes? Quem disse que ser esperto é ruim ou necessariamente antiético? Por que ter vergonha disso em vez de usar a esperteza a nosso favor?

O empreendedorismo e a criatividade do brasileiro nada mais são que expressões dessa faceta mais nobre da lei de Gérson. Afinal, empreender não é saber aproveitar oportunidades? Criar não é violar regras estabelecidas e preconcebidas? Tudo isso não é, no fundo, saber levar vantagem? Vamos largar a mão de ser bestas e incorporar com orgulho nosso lado Macunaíma. Vamos dar um basta à histeria politicamente correta que infesta a humanidade e usar nosso próprio antídoto: a boa e velha lei de Gérson. Viva Macunaíma! Viva Gérson! Ziriguidum. Telecoteco. Balacobaco, esquindô, esquindô.

in: http://super.abril.com.br/superarquivo/2004/conteudo_124358.shtml